quinta-feira, 8 de abril de 2010

Outro desvio crônico

O vento precisava prender-se ao lírio, contudo corria o risco de tornar-se uma tempestade e arrancá-lo da proteção de sua terra, destruindo-o por completo.

Mas o que na natureza não precisa ser destruído para que possa renascer? Talvez eles fizessem parte da natureza, e porventura precisassem mesmo se renovar. Sonhos, esperanças, qualquer resquício de ilusão que pudesse mantê-los ali, intactos, por mais algumas horas.

Naquela época, ela ainda não sabia que seu destino era um penhasco tão alto que, de lá, o chão não era possível de se ver. Era um erro ambulante, gerada e nascida de sombras muito perturbadoras e densas. Tendia ao erro, por mais que algo muito forte – ali, à sua frente, nos olhos dele – gritasse, implorasse para que ela acordasse do sonho escuro em que havia mergulhado. Existiam muitas formas de estragar tudo, era subumano encontrar alguma que consertasse. Como tentar remendar as peças que o passado, tão próximo, já havia colado errado?

Só queria que não existisse um mundo além daquele quadro em que estavam inseridos naquele instante, pois ele era um caminho que exigia grandes renúncias, as quais ela não seria capaz de suportar. A vida poderia acabar agora e tudo estaria bem, porque ele estava ali, segurando a sua mão.

Mas o mistério é que a vida nunca acaba.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Este texto não devia estar aqui...

... mas eu quis.


Amélia Bones gostava das roupas impecavelmente passadas e dos cabelos escovados para dentro. Agradecia a Deus todos os dias por não sofrer do coração e morria de medo de ficar hipertensa, por isto nunca comia nada que levasse tempero. Deixara de usar os enormes óculos de acrílico preto desde que um teste oftalmológico desmentira a idéia que sua mãe construíra: de que sofrer de miopia era hereditário e, se ela não enxergasse mal ainda, mais tarde viria a enxergar e os óculos deveriam estar lá para que ela nunca perdesse sua capacidade de aprendizagem. Talvez o problema de sua visão consistisse em enxergar primeiro com o coração, embora houvesse nela um grande senso de justiça e razão. Amélia apenas enxergava o mundo com outros olhos. Olhos adultos demais para uma criança, talvez porque sentisse desesperadamente que precisava crescer, para que, assim, as pessoas escutassem as verdades que ela dizia brincando. E sua inteligência galgou os mais altos cargos de seu mundo, embora um poder muito maior que o mérito pelo conhecimento viesse, mais tarde, a arrancar o brilho de seus olhos e o vigor de seu pulso firme.

Naquele dia, Amélia fez tudo metodicamente, como fazia todos os dias antes de ir para o trabalho. Alinhou a coleção de elefantes da sorte – uma superstição herdada do pai e que nenhuma cultura era capaz de banir – que enfeitavam a prateleira de sua sala de estar, e que também era a sala de visitas e o hall de entrada de sua casa de telhas holandesas e janelas brancas. Trocou a água com açúcar dos beija-flores que ficava pendurada em um lustre da varanda frontal da casa e alimentou seus três gatos siameses e seu cachorro spitz alemão cego dos dois olhos por catarata.

Sempre que saía de casa, deixava uma lista de feitiços de proteção na porta e um olhar de despedida recaía sobre o lugar. Seu jardim de lilases e violetas – amava a cor roxa mais que o amarelo e bronze de sua antiga casa em Hogwarts –, sua grama bem cuidada, tudo tão milimetricamente organizado como ela tentava fazer com a sua vida. Não era apegada às coisas materiais, nunca o fora. Porventura ela simplesmente soubesse que seria privada muito cedo daquela paz, mesmo que em nenhum momento ousasse ter medo da dor. Não. Amélia precisava da dor para se sentir viva. Se seu coração não se retorcesse de saudade e dor todos os dias dentro do peito, seria como se a morte de Edgar estivesse sendo esquecida. Mas ela se lembrava dele todos os dias. Suas feições tão juvenis, mesmo depois de dois filhos e algumas rugas de expressão. Suas piadas tão inglesas e seus óculos de aros quadrados, sempre tão bem vestido e aprumado. Os chás com biscoitos de nata em que ela e a cunhada trocavam livros enquanto as crianças brincavam com os animais. Sua família. Morta.

O Ministério da Magia não era mais um lugar seguro, assim como trabalhar ali não era mais uma necessidade e sim uma questão de honra. Enquanto as pessoas fugiam com suas famílias ou se rebelavam assumindo o lado negro, Amélia continuava, a cabeça erguida, ainda que seu poder tivesse sido restringindo. Permanecer ali era sua maneira de lutar. E se morresse? Não seria a primeira vez, ela já havia morrido diversas vezes.

— Bones! Aí está você — disse a voz grossa de Rufo Scrimgeour, assim que a silhueta esguia de Amélia emergiu das chamas verdes da lareira na entrada do Ministério.

— Algum problema, Scrimgeour? — perguntou a mulher, por trás de um olhar precavido que esquadrinhava tudo ao seu redor, a preocupação devidamente ocultada pela máscara de austeridade que edificara ao longo de seu trabalho.

— Stanislau Shunpike! — disse o homem, tentando a esmo parecer animado — Nós o capturamos! — ele sorriu, digno de pena.

— Ora, essa! E o que você quer que eu faça?

O Ministro hesitou, depois continuou, a voz mais baixa, parecendo sem graça.

— Bom, vamos mandá-lo a Azkaban, já mandei anunciar no jornal.

— Francamente, Scrimgeour, espera passar confiança à população bruxa prendendo um ladrão de galinhas?

Brunnë, este texto é para você. :)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Regret

Hier encore, j’avais vingt ans
Je gaspillais le temps en croyant l’arrêter
Ela sempre pensou que acolheria a velhice sem muito pestanejar. Abraçaria sua nova companheira inerente com todo o seu corpo antigo, moldando-se a ela, e obrigando-a a moldar-se também. Havia algo de bonito nisso, entrega e renúncia ao mesmo tempo.
No entanto, naquele inverno, sua nova irmã chegou com outras fantasias costuradas nos braços, e ela, Johanna, se enciumou.

E a mulher que sempre fora uma menina velha, transformava-se agora, pouco a pouco, em uma velha com desejos de menina.

As tardes de sol que as cortinas acinzentadas em seus olhos nunca a deixaram ver; os namorados que seu orgulho ressentido sempre fizera questão de repelir em forma de indiferença desgastante. Os amigos que ela afastou por sempre reclamar demais. Perdeu os amigos porque levantar-se do sofá para procurá-los era uma atitude trabalhosa demais. As vozes divinas que ela não escutou porque estava desesperada demais procurando por Deus, sem perceber que Ele gritava em vagas de vento fresco em dias quentes. Ele a tocava através dos pêlos macios de seus animais ou da chuva fina que molhava seu rosto. Deus era a água! Dançava para ela sob a forma de uma folha flutuando ao vento.

E ela sempre se escondia da chuva. Ela sempre fechava os olhos quando ventava. Ela varria as folhas de seu quintal, se perguntando por que Deus havia se esquecido dela. E quanto mais ela pedia, mais Ele mostrava. Quantas oportunidades afogadas na morna lama parada da desesperança e da inércia. Enquanto tentava blindar-se do mundo agressivo, a vida desgastou Johanna de uma forma tão brutal como nada do que ela se protegeu poderia ter feito. Fugindo da brutalidade, ela se escondeu numa casca impenetrável de frieza.

E o gelo queimou seu coração, porque o delicado essencial esteve lá o tempo todo, mas ela nunca quis ver.

Já vai amanhecer, Jo
A destruição é necessária
É o presságio da evolução

domingo, 24 de janeiro de 2010

Nostalgia

Está na hora de me despedir de toda a ilusão criada, ornamentada e enaltecida até então. Não que a dor não se faça presente em tal momento. Romper partes que ainda se mantêm unidas por um fiapo de lembrança dói mais que um acidente violento, pois essa frágil linha, descobre-se, é a mais forte que houve desde o começo. Aquele pedacinho de esperança que permaneceu, aquela fina recordação, como uma sombra que se apaga quanto maior for o nosso esforço para tentar torná-la nítida, quanto sofrimento isso pode causar. Eis a mais inabalável das ligações.

Sempre deixei vestígios espalhados, alguns até bem escondidos de mim mesma. Contudo, em todas as vezes, nunca houve ar nenhum de despedida, simplesmente porque eles estariam ali, para me encotrarem quando oportuno, quando Deus quisesse, ou não. Esta vontade não é Dele.

Difícil deixá-los agora, meus inerentes hábitos, que aos poucos se tornaram vícios e agora me são intrínsecos. Talvez eu deva voltá-los para a caixa que nunca fui capaz de queimar, embora ela sempre me queime a alma. Dentro da bolsinha de contas, protegidos de toda a minha efemeridade e debilidade de ocasião.

Com que fraqueza concluo este desfecho, entregando-me outra vez à incapacidade de por fim. Lendo pela décima vez as mesmas cenas, tão cuidadosamente narradas. Não acredito que houvesse alguma falsidade naqueles personagens, pois todos se tornaram tão inevitavelmente meus. Meus anti-heróis disfarçados de vilões, todos vítimas de si mesmos, todos ângulos diferentes da minha própria identidade. Ainda há tantos outros espalhados em diferentes cantos da minha mente insólita, à espreita da minha oportunidade, esperando um ínfimo relance da minha inspiração, desejando desesperadamente que eu os molde, que eu lhes dê ao menos uma chance de viver, mesmo que na insignificância das minhas histórias mortas, inacabadas, embora para mim, e somente para mim, sejam de importância realmente vital.

Mas nunca mais terei o mesmo prazer de manipular os meus preferidos, porque um pedaço de toda a fonte inesgotável se foi. Para onde, eu gostaria de saber.

Inacabado.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Hoje; anos depois; as partes de que me lembro (...)

Nunca cheguei a imaginar que as coisas aconteceriam da forma como aconteceram. É impressionante a confiança que sentimos quando erguemos sonhos em terrenos de pó, embora sempre estejamos errados sobre o futuro. Mas imaginar a vida sem ela era como imaginar-me sem membros. Sem olhos, sem consciência. É vida? É. A vida é tumulto, calmaria pressente problema, apesar de a vida ao lado dela nunca ter sido algo tranquilo. É injusto dizer que Maris me fazia sofrer, quando tudo o que me destruía partia de mim, e corria tortuoso em direção a ela. Sofri de tanto vê-la sofrer. Na tentativa de transferir para mim feridas que eram dela, desgastei-a profundamente.

Ah, era para falar sobre a vida de agora, vou contar sobre ela. É que a velhice nos permite certa paciência. É engraçado, porque quando somos jovens, corremos contra o tempo, estamos sempre atrasados para qualquer coisa. Agora que meu tempo é ínfimo, sinto que posso o que quiser, com a maior calma do mundo. Mas antes, devo encontrar alguma forma de decodificar Maris. É cruel falar dela porque ela era, ela é um anjo. Personificação da bondade, retocada de ironia e delinquência. Ah, não. Maris não era desonesta, nem com ela nem com ninguém. A insolência dela era culpa da criança que ela nunca conseguiu deixar de ser, e não se tratava de uma criança normal, mas uma criança marcada por dores de adulto. O problema é que fazia mal demais a si mesma, querendo ser correta com os outros. Espero em Deus que Maris esteja bem.

Hoje não tenho mais a cautela que tinha para escrever, quando jogava as tardes fora brincando de trocar palavras com Maris... a gente gostava de rebuscar, que erudição era aquela que nos invadia? A verdade é que, com ela, tudo fazia sentido.


J.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Atendendo ao comando;

[Vinte linhas é muito pouco, mas é tudo o que é permitido para esta narrativa em que devo contar a história da vida de um morador de rua com quem conversei e dar a ela um final surpreendente.]

A rua espreitava à sombra quando cheguei, não tinha nome. Na periferia há sempre um ar de incerteza, mesmo na quietude. Não notei de imediato a presença dela, compunha um emaranhado de panos sujos e cabelos desgrenhados em grossos cordões. Seu rosto era oval e opaco, mas estranhamente belo. Não devia ter mais que trinta anos. Perguntei seu nome, ela se retesou, depois respondeu. “É Marina.” Tentei demonstrar naturalidade sentando-me ao seu lado, mas ela conhecia aquela maneira que temos de lidar com algo muito asqueroso, que ironicamente é a mesma de quando tocamos em algo muito delicado. Ela era as duas coisas, e eu não sabia como portar-me naquele primeiro contato que tinha com a face mais crua do jornalismo. Expliquei meu propósito, esclarecendo que era apenas um trabalho de faculdade, o primeiro, aliás, quando ela me perguntou o que eu queria. Sorriu, para minha surpresa, mas sua dor era quase tangível. Pedi que contasse a mim tudo o que pudesse sobre as razões pelas quais se encontrava ali. Acabamos conversando por horas. Marina não era exceção, em seu mundo, ela era a regra. Sua história era igual à de tantas outras mulheres, vítimas do descaso, do machismo e da violência doméstica. A fuga para outra cidade fora uma medida desesperada contra a tortura de viver em função de um homem que nunca a respeitara. Quis buscar um pouco de dignidade em outro lugar, mas só o desemprego e o preconceito estavam lá para recebê-la. As drogas lhe permitiam desligar-se de sua realidade, o ópio era barato e disfarçava a sensação de frio e de fome. Como a história de Marina poderia ter um final surpreendente se estamos tão acomodados a casos como estes? Gostaria de tê-la retirado dali, quis levá-la comigo e dizer que tudo ficaria bem, que eu cuidaria dela. Mas eu era apenas uma estudante, sem renda e sem independência. E as ruas estão cheias de Marinas.


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Stella nunca deixou de ser

I will steal you, Stella.

Acontece como com as pessoas que continuam sentindo os membros mesmo depois de amputados.

Ou o doce do açúcar dissolvido em água pura. Não mais se vê.

Intocável como sempre o fora.

Claro espelho estilhaçado, que de tanto se dividir, tornou-se incolor. E quanto mais reflete agora! Tão mais se faz presente, porque agora é disperso – como sempre sonhou ser – onipresente.

Minha flor ubíqua, nos meus onze sentidos, em sinestesia e comunhão permanente